segunda-feira, 15 de julho de 2013

Bons Augúrios



Título: Bons Augúrios;
Autor: Neil Gaiman e Terry Pratchett;
Editora: Editorial Presença,
Colecção Via Láctea, nº25, Novembro 2004;
Tradução: Carlos Grifo Babo;

Aviso: Lembram-se de 2012?
Possivelmente foi algo assim.
Os detalhes de como o Apocalipse foi acontecendo e acabou por não acontecer.

Juntam-se dois autores cujo sentido de humor é ligeiramente distorcido, trazendo o horror à diversão e aplicam neste volume um estilo de escrita apimentado por sarcasmo e notas de rodapé que se entrelaçam na história com apartes, esclarecimentos e confirmações gramaticais e temos em mãos um volume que consegue entreter e arrastar risos em voz alta.
O Apocalipse já está pré-programado no universo porque Deus assim o disse. Ninguém no Céu e Inferno sabe porquê, apenas que tem de acontecer. Anjos e Demónios têm agentes na terra que alinham as rodas (manipulam humanos) para que quando chegar a altura, chegou. A história tem como protagonistas Crowley, o demónio, e Aziráfalo, o anjo, que depois de milénios na terra têm uma relação cordial, inimigos amigáveis, e concordam que o mundo não é aborrecido e que merece continuar a sua existência. Unem então esforços para desfazer o que está a começar. Há mais protagonistas mas entrar por essa linha levaria demasiado tempo e arruinaria a surpresa do que decorre entre as capas.
É toda a história de como sabotar o Apocalipse em aproximadamente uma semana.

PS: Ter um anticristo desinteressado em toda a confusão também ajuda.

Sabine

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A Loja dos Suicídios

Atenção a todos os suicídas em série... se é que tal gente existe: agora é possível ter sucesso na morte se não se teve nenhum em vida. A resposta está no livro de Jean Teulé. O lema da loja é um suicídio bem sucessido ou o dinheiro devolvido. A isto é que eu chamo bom serviço.
Encontrei este livro por acaso. Estava à procura no próximo livro para ler (na verdade até queria era um livro de receitas) e a capa chamou-me à atenção - nunca substimem o poder da cor. No entanto foi o título que me fez decidir investir. Foi uma leitura rápida, menos até que um dia, - o que certamente pode significar tempo suficiente para um suicída mudar de ideias - e nunca me ri tanto com algo tão macabro.
Desde cordas de cânhamo a venenos artesanais, A Loja dos Suicídios está aberta todos os dias. Ou estaria, melhor dizendo. A história por detrás desta estranha forma de comércio do Sr. e da Sra. Tuvache é na verdade a de uma família conhecida à gerações pelo fabrico e comércio de diferentes formas de suicídio e da sua adaptação à primeira criança da família a, vejam bem, sorrir.
O bom deste livro é o facto de dar um lado cómico a uma saída considerada por muitos no mundo como covarde. Aconselho-o a todos os que querem fugir e a todos os que não queiram. A Loja dos Suicídios pode salvar muitas vidas.

Austen

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Peso da Leveza

Título: O Bom Inverno
Autor: João Tordo
Editora: LeYa BIS (livro de bolso)
Páginas: 304

O peso indelével da existência persiste na sua marcha: cada escolha, enquanto sombra da liberdade, é um prenúncio da marca de finitude. Que é esta senão a asfixia da leveza, a perseguição incansável da ilusão de unicidade? A busca de um outro? Mas é também neste que se transfigura a realidade, que submergimos na multiplicidade e se desdobra a vida, num passo acelerado rumo à morte. Essa é a nossa marca de finitude, num universo de infinitas hipóteses, onde ilusão e realidade bailam, recriando o sentido, consumando a ambiguidade do peso da leveza como uma bem-vinda maldição.


A atmosfera que permeia O Bom Inverno é de mistério, desenrolando-se entre o thriller psicológico e o policial, com algumas pinceladas surreais que dão um ritmo vertiginoso à leitura. A história é narrada por um escritor letárgico, engolido por uma dormência que o aprisiona a uma existência eremítica e paranóica, ficando coxo de uma perna (sem nenhum motivo físico), envelhecendo, deixando-se consumir pela arbitrariedade do seu rumo. Contudo, tudo muda quando recebe um convite da sua editora para participar num ciclo de conferências na Hungria, que aceita relutante. Aí conhece os italianos Vincenzo (um jovem audacioso escritor) e Olivia (sua namorada) e Nina, uma inglesa, namorada de um reconhecido escritor, John McGill, que o desafiam a ir passar uma temporada em Sabaudia, na casa de um famoso cineasta, Don Metzger (interessado no livro de McGill). Chegados ao seu destino, conhecem os colaboradores do cineasta, como Elsa Gorski, uma bela actriz, e Bosco, um sinistro criador de balões de ar quente. Com o aparecimento do cadáver de Don Metzger embarcam numa torrente de acontecimentos, abandonando a sua anterior existência para se encontrarem envolvidos numa teia de homicídios e mentiras. A perseguição ao assassino começa, envolvida pela desconfiança, pelo delírio e pela sede de justiça; não há saída possível.

Esta leitura foi a minha estreia no mundo de João Tordo e posso dizer que não consegui pousar o livro. A escrita despretensiosa do autor é tão fluída e visual que facilmente submergimos no seu universo e nos deixamos enredar pelos acontecimentos. O que mais me impressionou foi a forma como consegue aliar uma história tão cativante a diversas reflexões metafísicas que desabrocham em diálogos inesperados, entre personagens tão diferentes. Simultaneamente, o próprio livro é um ensaio sobre o significado da escrita e do seu autor, esse demiurgo que desconstrói e reordena o mundo, salvando-o apesar da sua corrida incessante para a morte, imortalizando-se apesar da sua finitude. Será o despojamento a salvação perante a efemeridade ou, pelo contrário, será esta alcançada pelo enlaçamento com os frutos da nossa condição de liberdade? É entre a leveza e o peso que a vida acontece e, apesar dos limites, apesar da incerteza, se reescreve incessantemente. Como escreveremos a nossa história?


Será que o nosso narrador se irá salvar? Conseguirá escapar ao Bom Inverno? 

K. Dalloway

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Rainha Vermelha



       Título Original: The Red Queen

          Autor: Philippa Gregory

Editora: Civilização Editora
Páginas: 408



O segundo livro da trilogia de Philippa Gregory,  A Rainha Vermelha, conta a história da herdeira da casa de Lancaster, Margarida, que vê as suas ambições frustradas quando descobre que a mãe a quer enviar para um casamento sem amor no País de Gales. Casada com um homem que tem o dobro da sua idade, depressa enviúva, sendo mãe aos catorze anos. Margarida está determinada em fazer com que o seu filho seja o próximo rei da Inglaterra, custe o que custar. 

Neste livro Gregory leva o leitor até ao início da conhecida Guerra das Rosas entre a casa de Lancaster e a casa de York. A capacidade da autora de «dar vida» a personagens históricas que, por vezes, nos fazem esquecer, com as suas atrocidades, de que estas também eram humanas, tinha sonhos, expectativas, ambições e queriam o melhor para si e para os seus. Numa época em que ser mulher era ser-se inferior, Margarida mostra que, houve durante toda a História mulheres corajosas que ousaram conquistar o seu lugar na sociedade. Este livro vem no seguimento de A Rainha Branca.

Mais uma vez, Philippa Gregory mostra o porquê de ser uma das grandes autoras de referência no romance histórico.
Winter

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Minha Irmã Obrigou-me



Tag: O Sacrifício dos Livros


Cenário 1: Estamos na nossa livraria preferida, completamente hipnotizados pelas novidades, a fazer ínfimas listas mentais com as razões pelas quais não precisamos de comprar mais livros (o costume…). Quando, de repente, ouvimos o anúncio: «Apocalipse de Zombies! Estamos a ser atacados por zombies e a única forma de se salvarem é atingirem o vosso inimigo com um livro sensacionalista!» Que livro, de todos aqueles que foram aclamados por toda a gente, escolheriam? Que livro sacrificariam sem nenhum remorso para se salvarem?

1 – A Bíblia. Para além da ironia de atirar religião a zombies um calhamaço daqueles vai fazer alguns estragos. Para além disso é um livro de histórias que andou a ser demasiado levado a sério. Por outro lado vi recentemente um questionário para jogadores… dizia que em caso de Apocalipse Zombie vamos ser magicamente agraciados com a última arma que usamos num jogo… portanto… vou brincar com isto:


Cenário 2: Acabamos de sair de um cabeleireiro com o melhor penteado do mundo. Nunca tivemos o cabelo tão bonito e gastámos uma fortuna! Estamos a sair e… BUUUMMM: Chuva torrencial! Não temos chapéu de chuva… temos de usar um livro. Que livro, numa série, estamos dispostos a sacrificar para proteger o cabelo?

2 – Fita-cola e a Saga Twilight. Coloca-se os quatro livros criando um rectângulo, selam-se as falhas e temos um mini-telhado. Sem esquecer de fechar os livros em si para que as páginas não esvoacem a arruínem o estilo.


Cenário 3: Estamos sentados numa aula sobre literatura. O nosso professor começa a falar emocionado sobre aquele clássico que «mudou o mundo», mas que nós não suportamos. Odiámo-lo tanto que só queremos pegar nele e atirá-lo ao professor. Que clássico nos irrita tanto?

3 – Todos. Os. Livros. Que. Me. Forçaram. A. Ler. Nas. Malditas. Aulas. De. Português. A minha opinião desses varia entre “O autor deveria ter morrido antes de poder escrevinhar isto” e “porque é que estão a tentar ver mais do que existe no papel. Se o autor escreveu que as cortinas eram azuis era por que a as cortinas eram azuis. Não está a falar da imensa depressão que o personagem está a sentir naquele momento oculta por uma camada de estoicismo ou qualquer treta do género.”
Não sei como conseguem sugar tudo o que o livro poderia ter contido mas para mim esses são o equivalente a comer pó.
Vou precisar de uma bazuca para distribuição eficiente e maior pontaria.
Esta imagem explica mais graficamente a questão…



Cenário 4: Estamos na biblioteca quando… BUMMM! Explode o aquecimento global e o mundo transforma-se num deserto gelado! Para não morrermos de frio, temos de queimar livros. Qual é o livro que vamos queimar primeiro? Qual é o livro que menos gostámos de ler em toda a nossa vida? Qual é a obra que não sentiríamos remorsos em queimar?

4 – Deixem-me ir à secção que contem as tretas mais recentes que se intitulam de livros e que não deviam ter abandonado a internet… Dança à volta da fogueira com 50 Sombras de Gray e afiliados. Posso dizer que não os li mas tudo o que me contaram me faz sentir umas quantas náuseas. Se querem erotismo e pornografia em livros vão para outros autores. Há muito melhor por aí. e a maior parte possui ainda um extra ao qual chamamos enredo.

E finalmente admito… nenhum dos livros acima me custou sacrificar.

Sabine

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Memórias de Adriano

Este ano, devido a problemas pessoais que mais vale não serem discutidos para não adormecer ninguém, não tive grande oportunidade de ir à Feira do Livro no Parque Eduardo VII. Na verdade, não tive tempo para nada, mas isto tudo para dizer que só pude ir uma vez. Não foi um dia muito proveitoso: o tempo estava solarengo mas abafado, andei sempre a correr, passei por bancas ou atafulhadas de gente ou completamente desertas, ambos os lados do parque completamente impedidos a qualquer peão que ousasse tentar a sua sorte e entrar no mar de livros, sessões de autógrafos, farturas (sim, porque a feira é para esfomeados no geral, não só por Literatura) bancas de comida para gato (por alguma razão!) e tudo isto sem conseguir encontrar um livro que me chama-se a atenção que já não tivesse.
Por sorte, não estava sozinha. Minutos antes tinha-me encontrado com um amigo já dos tempos do liceu que, talvez por monotonia, decidiu vir comigo. Foi o que me valeu. Passadas umas horas vimo-nos na zona dos alfarrabistas. Ele estava à procura de um livro para uma colega da faculdade (lamento, mas se nunca os lí, os títulos e autores falham-me) e encontramos um exemplar das Memórias de Adriano entre a poeira. Não que esta obra seja muito antiga. Esta edição foi publicada em Janeiro de 2005. Mas talvez por Yourcenar não ser um nome que soe no nosso quotidiano, caiu como muitos dos seus pares no esquecimento.
Ele tinha-o lido. E adorado. Mas avisou-me logo que, e passo a citar, "envelhece-te mil anos". Não é muito de estranhar. Afinal, Adriano viveu há quase mil anos (nasceu em 76 d.C.), mas para os leigos de História Romana (como é o meu caso), o nome do imperador é apenas um nome utilizado num franchising antiquado de termas e muralhas romanas que proliferaram na Europa no seu reinado. Seja como for, comprei o livro - custou-me 5€, imaginem - para ver se criava algumas rugas. Ainda não o acabei, e talvez por isso ainda não ande de bengala, apesar de já sentir dores nas costas. No entanto, o livro tem-me surpreendido.
Memórias de Adriano conta a biografia de um imperador romano oriundo de então Hispania, que estudou a Filosofia grega, que se tornou soldado elevando-se ao posto de Governador da Síria e cuja culminou na sua ascensão a Imperador do Império Romano. Humanista e Philhellene, é actualmente considerado pela História  o terceiro dos Cinco Bons Imperadores. As suas obras, como já mencionei, estão espalhadas por toda a Europa, chegando ao Norte de Africa e mesmo à Ásia. Mas o facto de a personagem principal ser uma das figuras mais importantes e amadas da história (até porque as personagens mais interessantes são as menos amadas) não é a razão pela qual considero este livro bom, e sim a própria forma como está escrito.
É a primeira vez na minha vida em que leio uma biografia escrita na primeira pessoa deste. Dirão que existem muitas escritas da mesma forma, e eu própria já me deparei com vários diários fictícios (ver, por exemplo, o post sobre O Diário Secreto de Maria Antonieta) mas esta tem uma grande diferença que, a meu ver, altera toda a natureza da obra e capta a atenção do leitor: trata-se de um monólogo. Nesta obra não há qualquer tipo de diálogo entre a personagem principal/narrador e as outras personagens. Todo o livro é uma extensa carta ao sucessor de Adriano, Marco, escrita pressupostamente pela sua própria mão como contributo à sua educação. A forma simplicista, austera, e contudo graciosa e magestosa de relatar o passado, capta o leitor desde a primeira página e (tenho a certeza apesar de ainda não estar acabado) até à última.
Este é mesmo um livro que nos envelhece mil anos. Mas a idade avançada provém da experiência que o leitor acaba por sentir no papel de Adriano. Pois esse é o grande poder destas suas Memórias.

Austen